>Quem quer um padrinho ou uma postagem longa demais

>Ontem, vendo o debate na Band, lembrei o quanto a trajetória política de Eduardo Paes é curiosa.
O candidato a prefeito já circulou pelas fileiras do PV, do PTB, do PFL, do PSDB e desde um par de anos atrás engrossa a turma do PMDB. Cria de César Maia, Paes que foi um de seus Sub-Prefeitos quando ainda estava na faculdade, parece correr de um lado para outro procurando sempre a acolhida de um novo padrinho eleitoral. Fez assim com o atualmente impopular prefeito carioca e com o PSDB de FHC e Serra. Depois de uma atuação destacada no “Caso Mensalão”, em que ajudou a investigar o que muitos chamam de “o maior escândalo de corrupção da história do Brasil”, tentou usar a popularidade alcançada nacionalmente para ser governador do Rio. Tomou uma sova que não merecia, na época, claro.
Durante a campanha para governador execrou de todas o populismo dos Garotinhos, esposo e senhora, e apontou o candidato posteriormente eleito Sérgio Cabral como a continuidade do casal de Campos. Não deixava de ter certa razão porque, apesar dos eternos rachas do PMDB, o fato inegável era que Cabral marcava mais 4 anos do partido no comando do estado fluminense. Tudo muito bom, coerente e correto.
Até que de uma hora para outra, Paes abandona o barco do PSDB, a luta contra a corrupção denunciando o PT e aliados, entra no PMDB, assume secretarias, anda de braços dados com Cabral de cima pra baixo, pede perdão pra Lula, renega César Maia, diz que a culpa do falido sistema de saúde do Rio foi a gestão desastrosa da Secretaria de Saúde Municipal pelo PSDB, que na época da indicação do secretário ainda contava com Paes no partido, em uma função de liderança inclusive e por aí vai.
Não consigo evitar a sensação de que Paes pula de um galho para outro a qualquer sinal de que a saúde da árvore não está tão boa assim. Sepulta para sempre a imagem de moço corajoso e de um novo tipo de político mais ético, consagrada na CPI. Não parece ter qualquer ideologia ou convicção mais firme. Nem mesmo um projeto político no qual acredite de fato. Até aí, nada que outros de seus pares mais preocupados em ganhar eleições apostando no melhor cavalo do que em bem servir também não tenham feito outrora. Paes, verdade, não é mais carismática das criaturas. É muito associado à Barra da Tijuca e a PUC, o que não tem a mesma capacidade de atrair votos da patuléia do que ser “ex-bispo, com intensa obra social na África”, “operário sindicalista, filho de mãe que nasceu analfabeta” ou membro de qualquer minoria. É compreensível então que procure abrigo com padrinhos que gozam da popularidade abençoada. Pode de fato até precisar disso para ter uma sobrevida eleitoral. A voz do povo é voz de Deus. Um Deus nada onisciente, na maioria das vezes.
De qualquer forma, o que perturba mesmo é o pedido de desculpas ao Lula e ao PT. Ninguém disse que o Mensalão não ocorreu. Ao contrário, existem fortes indícios de que era uma prática real e nefasta, conforme o entendimento de nosso tribunal maior. Assim, o trabalho de investigação parlamentar do qual Paes participou foi admirável. Descobriram desde a lavagem de dinheiro até mesmo a participação de fundos de investimento financiando o esquema de subversão da democracia por meio da mesada. Se não foram mais além foi graças ao empenho governista em atrapalhar as investigações sempre que possível. A história segue na Justiça com mais de 40 indiciados, que se não conseguirem protelar o andamento do processo por décadas, devem ser condenados por seus possíveis crimes.
Isso para mim é motivo de orgulho. É serviço prestado ao país até com doses de heroísmo. Não importa a popularidade do presidente nem a aprovação ao seu governo. Crime é crime, independente da capacidade de fazer bravatas ou metáforas idiotas. Gostaria de aplaudir a Paes por esse trabalho, mais uma vez votando em sua candidatura, como fiz na eleição para governador passada. Não posso. Não posso porque o Eduardo parece estar envergonhado de sua obra. Escreve carta e tudo para se desculpar. Com vergonha pede desculpas por ter trabalhado bem. Era da oposição e o papel oposicionista também inclui fiscalizar as trapalhadas do governo. Paes pede desculpas ao Lula, mas não pede aos seus eleitores de outros tempos, abandonados no deserto da falta de ética nacional.
É também por vergonha, na cara, que não voto mais em Paes. E não peço desculpas por isso.

http://colunas.g1.com.br/cristianalobo/2008/10/08/desculpas/

Sobre doutorcasa

Neurocirugião autodidata, paranormal e carpinteiro.
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